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2 de setembro de 2017

  ♥ A velha chaleira de ferro. ♥
 





O fogão à lenha a chaleira de ferro em ebulição. Na beira do fogão um suporte sustentava o coador feito do pano branco do saco de açúcar. Sobre o coador a chaleira despejava suas lagrimas fumegantes sobre o pó preto do puro café do quintal. O aroma se espalhava pelo caminho da roça. Era o café da preta Sinhá no fim da tarde. Ainda posso vê-la com lenço branco a cobrir a cabeleira cinza, ela sabia que era a hora do Ângelus e entoava a Ave Maria com voz rouca, que tenho guardada ainda comigo.

Um aceno de mão era convite para um café com um bolo feito enrolado na folha da bananeira e adoçado com a rapadura feita ali no terreiro. Eu sempre aceitava a ouvir mais uma de suas historias de tempos passados, que ela descrevia com riqueza de detalhes, que me faziam adentrar no túnel do tempo, para lhe compreender e reviver cada emoção que seus olhos já cinzas traduziam em saudosismo.

Era assim todas as tardes na minha volta para casa, com meu corpo cansado da labuta diária aquele café era analgésico e suas conversas me colocavam num banco de escola sobre historias, que a escola me negava. Não via lagrimas em seus olhos, nem mesmo um sopro de ódio de todas as injustiças e maldades sofridas numa época de servidão. Seu sorriso escondia todas as mazelas, como arte de não se entregar a nenhum tipo de angustia. A velha Sinhá tinha arte de refazer sua alegria.

Mas logo o véu negro da noite cobria a serra ao longe e Sinhá Preta já preparava a lamparina a querosene, seguida por um gato rajado que enroscava em sua perna enquanto andava. Eu observava cada detalhe desta senhora de olhar calmo e que adorava contar historias. Uma Lua deixava cair seus raios sobre a roça. Olho para o meu caminho e ela com um sorriso entendia minha despedida. Levava a mão direita sobre minha testa balbuciava alguma forma de benção.


Mas um dia não havia mais fumaça branca na chaminé, nem o aroma de café pelo ar e meu aceno de mão ficou parado no ar.
Dona Sinhá partira.


Toninho.




18 comentários:

  1. Doces lembranças nostálgicas do Toninho. Deve sentir falta da Dona Sinhá. Eu tb sentiria. O carinho da prosa, o bolo e café servido tudo ficou na memória daquele menino ávido por histórias, que agora nos conta. Muito lindo !

    bjs

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  2. É sua história Toninho?( ou da bisavó). Muito triste, mais parece da escravidão
    Eu vivi uma escravidão quando mamãe adoeceu, mas como diz o ditado: Aqui se faz aqui se paga.
    Beijos
    Lua Singular

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  3. Muito bem escrita a história do Toninho, quase puder sentir o cheiro do café aqui. Deve ter sido triste constatar que não havia mais esse momento tão aconchegante. Minha avó gostava de fazer café passado no saco, dizia que ficava muito melhor. Abraços!

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  4. lendo meu deu saudades da minha vó! Muito bonita a história!

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  5. Bom dia, Chica e Toninho.
    Sempre nos brindando com sensibilidade e conteúdo.
    Emocionante ler e ver o quanto a saudade está viva em cada detalhe.
    A partida não é fácil para ninguém, mas um ciclo que tem seu fim na Terra para iniciar outro no campo em que não vemos.
    Nem por isso, dói menos ou o amor não exista.
    Ambos estão de parabéns.
    Tudo de bom.
    Beijos na alma.

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  6. Bom dia Chica,
    Boas e ternas lembranças que Toninho narradas com a sua habitual mestria.
    Um instante ao domingo que adorei.
    Beijinhos e bom domingo.
    Ailime

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  7. Bom dia, querida Chica!
    Conhecia esta história que muito sensibiliza qualquer coração endurecido vindo de um poeta que retrara o sentimento mais nobre na partida da mãezinha querida...
    É duro demais! Senti o mesmo pelo pai e as lágrimas nem podiam cair pela face, só uma rolou co menorme dificuldade... coração secou de tanta e imensa tristeza... foi comovente demais... é uma partida inesquecível! Morre um pedaço de nós gigantesco junto...
    Sejam felizes e abençoados!
    Bjm de paz e bem aos dois

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  8. Que história triste,mas ao mesmo tempo uma realidade da vida que todos nós passamos quando perdemos àqueles que amamos tanto.
    Bjs amiga Chica.
    Carmen Lúcia.

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  9. Lembranças adocicadas com um aroma que adoro!!!
    O cheirinho do café lembra minha mãe que o fazia a cada amanhecer e eu acordava ao seu aroma!!!bj

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  10. Reler a narração do Toninho aqui foi bem gostoso. Café, bolo, histórias,... , enfim, lembranças belas e abençoadoras!...
    Um abração aos dois queridos...

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  11. Conto em narrativa, verdade relatada em nuances tão vívidas que nos remetem aos tempos mais calmos de uma convivência irmanada na amizade, na oferta amorosa de um café no fim da tarde.

    Bravo, amigo Toninho.
    Linda escolha, amiga, Chica.
    Abração aos dois.
    Calu

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  12. Toninho joga muito bem na posição de poeta, cronista e contista! Vê-se que suas histórias vem do fundo da alma, sentimentos à flor da pele. Quando leio o amigo Toninho já sei que sairei mais enriquecida.
    Aplauso sempre!
    Beijo, Toninho e Chica, queridos amigos.

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  13. Oi Chica,
    Maravilha de texto...
    Carregado de saudade e boas lembranças.
    Toninho com seu talento e sensibilidade
    sempre nos proporciona gostosas leituras...
    Bela partilha!
    Tenha uma linda semana! Bjs!

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  14. Ah, que "Chic" Chica, você trazer este texto, que honra.
    Feliz aqui com as palavras dos amigos, que muito incentivam fico-lhe grato por mais este carinho.
    Grato a todos que passaram e passam por aqui com suas leituras e inserções no texto que carrega uma saudade de um tempo feliz.
    Uma boa semana para todos nós.
    Abraços com carinho Chica.

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  15. Parabéns ao Toninho por partilhar uma história bela, cheia de lembranças, nostalgia, mas centrada num saudoso sentimento de homenagem a quem se ama e a quem se doou para cuidar do outro com amor verdadeiro. Também felicitar a Chica que nos trouxe essa bela e emocionante partilha.
    Abraços!

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  16. Ainda sou nova por cá, mas já conhecia esta esta amorosa e enternecedora narrativa que bem merece ser divulgada para honra do autor, o nosso estimado Tominho Bira.
    Beijos
    ~~~

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  17. Uma bela história de lembranças...
    Bom final de semana! Beijos

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  18. Que bom ter no coração esta lembrança, adorei já que eu sou muito saudosista,beijinhos e um forte abraço e um fim de semana fantástica.

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