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5 de junho de 2016

♥“Se Essa Rua, Se Essa Rua Fosse Minha..” ♥

Universo ou pedrinhas de brilhantes?

A rua era o Universo.

A pequena e desconhecida rua de terra do subúrbio carioca era o Mundo inteiro.

Tudo que acontecia no Planeta acontecia também naquela rua , só que com mais intensidade.

Um eclipse lunar era acompanhado por todos, visto e revisto da calçada ainda quente do sol suburbano.

Eclipse solar então... era motivo de desespero. Uma calamidade. Algo sobrenatural. O Mundo ia acabar ali, agora? E se o Sol se espatifasse na Terra e acabasse em fogo como diziam os antigos?

Eliezer, único exemplar adito da rua sentava-se plácido à porta da sua casa, na escada de entrada e via o mundo eclipsado através dos seus olhos vagos após uma crise que toda a rua tomava conhecimento.

Passado o "fim do mundo" e a crise de Eliezer as pipas voltavam aos céus, com bastante cerol, moído e remoído, colado e recolado em linha 10, aos gritos de "Tá com medo tabaréu? É linha de carretel!"
O Mundo era a rua e era simples como aquela gente que ali vivia.

Jorge e Ney eram negros; Vital e Ivanzinho, mulatos; Bebel e eu éramos morenos; Josimar era louro de olhos azuis e usava tranças mesmo com sete anos de idade, promessa de sua mãe para uma cegueira de que fora curado.

Não sabíamos que haviam cores entre as pessoas. Todos eram pessoas, amigos, gente.
Como disse muito bem Mandela: "Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar."

E era assim naquela rua: as crianças brincavam e sequer imaginavam que houvessem tais diferenças.
Naquela rua o jogo de bola parava quando passava uma senhora. Havia todo o tempo do Universo para marcar um gol.

Podíamos esperar Dona Delfina passar com a sacola carregada de bananas, a sobremesa mais barata e amadurecida na quitanda do português à base de carbureto.

Mais tarde , não muito, quando calçaram a rua, caminhando por ela à noite, a luz dos postes faiscava o granito a cada passo cumprindo-se a canção: "Ladrilhada com pedrinhas de brilhantes para o meu amor passar..."

E eu sentia o gosto das estrelas no céu da minha boca.
Acredito que ainda existam ruas e gentes como aquelas. Deve haver sim . Precisa haver. É ali que nasce a humanidade.

É ali que se educa para a humildade e solidariedade.
Percebo-me a pensar na minha neta, prisioneira de um computador num bairro nobre de São Paulo...vou perguntar-lhe se já pisou na rua descalça, ou se já pulou amarelinha na calçada riscada com giz.

Quando o tempo vier e ela amadurecer provavelmente recordará não de ruas de terra, mas de vias cibernéticas nas suas boas memórias da infância, percebendo afinal, como Drummond, que "...o Mundo não pesa mais que a mão de uma criança."

15 comentários:

  1. Bom dia Chica
    Que texto fabuloso que me emocionou!
    Eu já tive uma rua assim, duas ruas, todas as ruas da minha aldeia até aos treze anos, onde passei os melhores anos da minha vida. Gostava de tirar as sandálias e correr livremente descalça sobre a calçada. (Eu corria muito e depois me aleijava;))!
    Muitos fenómenos naturais inclusive uma aurora boreal e até o Sputnik 4 tive a felicidade de ver brilhando muito longe no espaço.
    A Lua, as estrelas cadentes, as constelações, as trovoadas secas com suas faíscas que lançavam no espaço gigantescos fogos-de-artifício me encantavam.
    Tudo era vivido por todos com muita intensidade. Era uma festa para miúdos e graúdos onde a palavra discriminação não entrava.
    Tenho pena que as crianças de hoje de um modo geral não possam ter contacto directo com estes fenómenos e também desfrutar do ar livre e de todas as belezas que nos envolvem e dos ensinamentos que recebíamos dos mais velhos por acréscimo.
    Obrigada por partilhar tão grandioso texto.
    Beijinhos e um bom domingo.
    Ailime

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  2. Lindo texto, com uma rica reflexão sobre o passado tão maravilhoso...
    O "Admirável Mundo Novo" de hoje tem suas belezas fantásticas, porém as alegrias são "maquiadas" e pálidas, se comparadas com a naturalidade dos ontens...

    Minha infância foi tão boa! Procuro passar agora para os netinhos "coisinhas" que valem a pena repetir, conservar... E vamos adiante, a vida é bela pra ser vivida e "mergulhada"...

    Bjs e Abçs

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  3. Delícia de crônica pra saudar essa domingueira chuvosa.Uma rua assim, que salta da nossa melhor memória infantil, onde o céu era infinito e particular.Onde corriam estrelas cadentes a rasgar sorrisos no rosto. Onde as pedrinhas do asfalto eram conhecidas e os desníveis marcados a giz.Amarelinhas, queimadas, piques se alternavam na algazarra da turminha.
    Ô gostosura embalar nesta hora minhas doces lembranças da rua de minha infância.
    Grata, amiga Chica por este momento mágico.
    Bjo e ótima semana.
    Calu

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  4. Chica!
    Voltei há décadas para a minha infância! Uma crônica de um tempo em que éramos felizes e sabíamos! Brincadeiras ingênuas, felizes, coletivas, sem nenhum preconceito, com famílias que faziam troca do que tinham em excesso, sem nada pedir em troca... Tudo era bem mais saudável! Até a política... a religião... os valores... a educação... a saúde, com o luxo do médico da família que acompanhava a tudo e a todos... Enfim, esse texto me proporcionou bons momentos! Obrigada!
    Bom domingo!
    Abraço.

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  5. Eu adorei o texto, Chica! Por quê? É que vivíamos exatamente assim, tivemos na verdade essa rua em nossas vidas e a levaremos conosco na memória da alma e do coração! E a contaremos sempre, sem nunca enjoar de falarmos dela! Abração!

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  6. Chica...um texto fabuloso que denota muita sensibilidade!
    Uma bela escolha para refletir...bj

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  7. Que fantástico texto, Chica
    Hoje a realidade é outra.
    Pena!
    Desejo uma linda tarde de domingo e uma ótima semana de paz.
    Aqui tivemos muita chuva e agora o sol resolveu aparecer com força total.
    Beijinhos de
    Verena e Bichinhos

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  8. Que lindo achado Chica. Não conhecia esta do Benvindo.
    Que bela viagem ele fez lá simplicidade da vida, lá onde a dor era compartilhada e todas as alegrias.
    Perfeito o olhar para as coisas simples e que se eternizam.
    Muito boa partilha para este instante.
    Gostei demais.

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  9. Eu já estou em seu blog e já tem um seguidor mais
    Passe e siga meu blog onde diz (participar neste site), clique aqui: Espero que sua visita http://mibonitolugar.blogspot.com.es/

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  10. Este comentário foi removido pelo autor.

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  11. Ah! Chica as ruas da minha infância ainda extrapolam histórias na memória... ainda continuo a curtir andar na rua, agora, com temor da insegurança...contudo, ainda ando a pé pelas ruas do meu bairro. Gostei muito da sua crônica. parabéns!CaipiracicabANA marly de OLiveira Jacobino

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  12. Eu queria tanto uma rua assim...
    Que descrição maravilhosa a amiga fez.
    Gostei muito de ler este seu texto.
    Desejo que se encontre bem.
    Bjs.
    Irene Alves

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